O Aborrecimento
O aborrecimento é a debilidade da alma que irrompe quando não se vive segundo a natureza, nem se enfrenta nobremente a tentação. Com efeito, a tentação é para uma alma nobre o que o alimento é para um corpo vigoroso.
O vento do norte nutre os brotos e as tentações consolidam a firmeza da alma.
A nuvem pobre de água é afastada pelo vento tal como a mente que não persevera no espírito do aborrecimento.
O orvalho da primavera aumenta o fruto do campo e a palavra espiritual exalta a firmeza da alma.
O fluxo do aborrecimento expulsa o monge de sua morada, enquanto que aquele que é perseverante está sempre tranqüilo.
O aborrecido aduz como pretexto a visita aos doentes (01), coisa que garante seu próprio objetivo.
O monge aborrecido é rápido em terminar suas tarefas e considera um preceito sua própria satisfação; a planta doente é dobrada por uma brisa leve e imaginar uma saída [justificadora] distrai o aborrecido.
Uma árvore bem plantada não é sacudida pela violência dos ventos e o aborrecimento não submete a alma bem sustentada.
O monge que anda em círculos, como uma solitária fibra seca, está pouco tranqüilo e, sem querer, é interrompido aqui e acolá a todo tempo.
Uma árvore transplantada não frutifica e o monge vagabundo não produz fruto de virtude. O doente não se satisfaz com um só tipo de alimento e o monge aborrecido não se satisfaz com uma só ocupação.
Não basta uma só mulher para satisfazer ao voluptuoso e não basta uma só cela para o aborrecido.
O olho do aborrecido se fixa continuamente nas janelas e sua mente imagina que chegam visitas; a porta gira e ele sai, escuta uma voz e olha pela a janela e dali não se afasta até que, sentado, se canse.
Quando lê, o aborrecido boceja muito, se deixa levar facilmente pelo sono, pesam-lhe os olhos, deita-se e, tirando o olhar do livro, o fixa na parede e, voltando a ler mais um pouco, fatiga-se inutilmente ao final de cada palavra; passa, então, a contar as páginas, calcular os parágrafos, desprezar as letras e belezas de estilo; finalmente, fechando o livro, o põe debaixo da cabeça e cai em sono não muito profundo. Pouco depois, a fome desperta na alma e, com ela, todas as suas preocupações.
O monge aborrecido é frouxo para a oração e certamente jamais pronunciará as palavras da oração; como efetivamente o doente jamais carrega peso excessivo, assim também o aborrecido seguramente não se ocupa diligentemente dos deveres para com Deus: primeiro, porque lhe falta efetivamente a força física; segundo, porque estranha o vigor da alma.
A paciência, o fazer tudo com muita constância e o temor de Deus cura o aborrecimento.
Dispõe para ti mesmo uma justa medida em cada atividade e não desistas antes de tê-la concluído; reza prudentemente e com força, e o espírito de aborrecimento se afastará de ti.
Por Evágrio Pôntico
Tradução: Carlos Martins Nabeto
Fonte: VE Multimedios
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Nota:
01. Na tradição dos monges do deserto, o abandonar a cela era uma das principais tentações do aborrecimento. Visitar doentes era, portanto, a maneira de encobrir sob o manto da caridade o desejo de sair da solidão.


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